* Um Kaleidoscópio *

a expressão de Kathleen Lessa

"Há sempre algo ausente que me atormenta." (Camille Claudel, em 1886)

 

Tive vários caleidoscópios e sempre fui um.
Formei-me e desmanchei-me muitas vezes.
Eu os tomava entre as mãos com curiosidade infantil, girava-os lentamente, pretendendo uma variedade de combinações bonitas e alegres. Passava horas quieta, os olhos viajando em suas sendas.
Hoje distingo nas mandalas aqueles diagramas que me aguçavam a imaginação de menina. Os caleidoscópios criavam mandalas.
Elas me encantam até hoje! Observo-as e mergulho num relaxante universo: a mente corre livre, alimenta-se, fica
satisfeita.
Porém, não raro, algo inesperado ocorria e tão-somente conseguia desenhos defeituosos, quase sem movimentos.
Percebia, então, que o  jogo de espelhos se partira e era o fim da beleza e da harmonia.  Não havia conserto.
Frustravam-me aquelas ocasiões.
Mea culpa?
Quem o derrubou? - perguntava-me.

Por isso é que escrevo, penso eu.
Para entender o mistério e a composição da vida, o  emaranhado de dificuldades que envolve as pessoas... Para resgatar sentimentos, ações, vontades e sonhos que em surda aflição morreram... pessoas que sem previsão fugiram ao meu nostálgico olhar... lembranças que eu gostaria que ainda fossem tempo presente, fizessem comigo a mesma caminhada, lado a lado, até o fim dos dias.
Escrevo para minimizar minha incompletude... para reunir as diversas outras faces de mim e recompor minha galeria de espelhos, dos mais polidos aos já cinquentenários, tão descascados e trincados.
Quero dar de face comigo, penetrar meus olhos nos olhos que me enxergam.
Há um tempo delimitado para se descobrir quem se é? É tarefa para a vida inteira?
É preciso que eu tome posse da minha casa, habite-a e  consiga me rejuntar.

As palavras também são espelhos.
Juntas, compõem caleidoscópios.

Eu sou um Kaleidoscópio.

 

        


Fundo musical:  "Lettre à France" (Dabadie et Polnareff)
 

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Página atualizada em 04.07.09 04:55