Kaleidoscópio Literário

                                 a expressão de Kathleen Lessa

  "Há sempre algo ausente que me atormenta."
(Camille Claudel)

 

Tive vários caleidoscópios e sempre fui um.
Formei-me e desmanchei-me muitas vezes.
Menina, eu os tomava entre as mãos com curiosidade, girava-os lentamente, pretendia uma variedade de combinações bonitas e alegres. Era comum que eu passasse horas quieta, os olhos em suas sendas, atenta às descobertas.
Sem saber já treinava a desconstrução do olhar.

Adulta, percebi nas mandalas as mesmas combinações multicores que na infância aguçaram minha imaginação. Era isso então! Os caleidoscópios criavam mandalas. Fascinam-me! Observo-as e mergulho num universo prazeroso: a mente corre livre, alimenta-se, apura-se, fica satisfeita, sossega, esvazia-se.
Porém naquela época, não raro, algo inesperado ocorria e eu tão-somente obtinha desenhos defeituosos, que se repetiam.
Não. A estabilidade não era um fato normal àqueles instrumentos mágicos!
Percebia, então, que o  jogo de espelhos se partira e era o fim da beleza e da harmonia. Como era bela a instabilidade que provocava tantas sensações diferentes em mim!
Não havia conserto possível.
Meu pai me prevenira: se isso acontecesse nada se poderia fazer. Entendi o fato como morte iminente e  senti por antecipação o travo da frustração. Lembro-me bem do quanto chorei quando o primeiro exemplar parou de funcionar.
        Mea culpa?
                Quem o derrubou?

Vieram outros e outros.

Por isso escrevo.
Escrevo para entender o mistério e a (de)composição da vida, os nós que envolvem a existência... o ato de se viver em constante alerta, na expectativa da morte, em linha reta com a probabilidade do estrago de um brinquedo. Sem aviso. Sem remédio.
Escrevo para resgatar sentimentos, vontades e sonhos, que em surda aflição findaram... pessoas que de repente fugiram ao meu olhar, lembranças que eu gostaria que ainda fizessem parte do presente, trilhassem comigo a mesma caminhada, lado a lado, até o término dos meus dias.
Escrevo para dar vida às imagens através das palavras, uni-las (unir--me?) e minimizar minha incompletude...  Para reunir as diversas outras faces de mim e recompor minha galeria de espelhos, dos mais polidos e reluzentes aos já cinquentenários, descascados e trincados, que ainda refletem algo para mim mas não para os outros. Tudo é saudade.
Quero dar de face comigo, penetrar meus olhos nos olhos que me enxergam. Enxergar sendo eu mesma e sendo outra. O olhar próprio e o alheio. Desfazer os paradigmas da sanidade e da loucura, misturar zonas claras e reflexas às escuras e opacas. Surpreender-me e indignar-me. A indignação é bênção que salva!
 
Descobrir--se é tarefa para a vida inteira.

É preciso que eu retome a posse da minha casa, habite-a e me recomponha.


   As palavras compõem caleidoscópios.
                          Eu sou um Kaleidoscópio.

 

                                                 *

 

 Fundo musical: "Lettre à France" (Dabadie et Polnareff)


 

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