"Há sempre algo ausente que me atormenta." (Camille Claudel, em 1886)
Tive vários caleidoscópios e sempre fui um.
Formei-me e desmanchei-me muitas vezes. Eu os tomava entre as mãos com curiosidade infantil, girava-os lentamente, pretendendo uma variedade de combinações bonitas e alegres. Passava horas quieta, os olhos viajando em suas sendas. Hoje distingo nas mandalas aqueles diagramas que me aguçavam a imaginação de menina. Os caleidoscópios criavam mandalas. Elas me encantam até hoje! Observo-as e mergulho num relaxante universo: a mente corre livre, alimenta-se, fica satisfeita. Porém, não raro, algo inesperado ocorria e tão-somente conseguia desenhos defeituosos, quase sem movimentos.
Percebia, então, que o jogo de espelhos se partira e era o fim da beleza e da harmonia. Não havia conserto. Frustravam-me aquelas ocasiões.
Mea culpa?
Quem o derrubou? - perguntava-me. Por isso é que escrevo, penso eu. Para entender o mistério e a composição da vida, o emaranhado de dificuldades que envolve as pessoas... Para resgatar sentimentos, ações, vontades e sonhos que em surda aflição morreram... pessoas que sem previsão fugiram ao meu nostálgico olhar... lembranças que eu gostaria que ainda fossem tempo presente, fizessem comigo a mesma caminhada, lado a lado, até o fim dos dias. Escrevo para minimizar minha incompletude... para reunir as diversas outras faces de mim e recompor minha galeria de espelhos, dos mais polidos aos já cinquentenários, tão descascados e trincados. Quero dar de face comigo, penetrar meus olhos nos olhos que me enxergam.
Há um tempo delimitado para se descobrir quem se é? É tarefa para a vida inteira?
É preciso que eu tome posse da minha casa, habite-a e consiga me rejuntar. As palavras também são espelhos. Juntas, compõem caleidoscópios. Eu sou um Kaleidoscópio.
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