
Tive vários caleidoscópios e sempre fui um.
Formei-me e desmanchei-me muitas vezes.
Eu os girava bem lentamente a fim de obter grande variedade de combinações, alegres e interessantes.
Porém, não raro, ao invés de belas imagens que eu buscava, conseguia tão-somente desenhos escuros
e estranhos, nada atrativos.
Percebia então que era o jogo de espelhos que estava aos cacos, misturando-se aos coloridos fragmentos transparentes, formando imagens erradas.
Quem o derrubou?, me perguntava...
Por isso é que escrevo, penso eu.
Para entender a composição da vida, o intricado que envolve as pessoas.
Para resgatar tantos sentimentos, ações, as vontades e sonhos que se fragmentaram...as pessoas que saíram do alcance do meu nostálgico olhar... as lembranças que eu gostaria que ainda fossem tempo presente.
Escrevo para rejuntar diversas outras faces de mim e recompor minha galeria de espelhos... os polidos e bisotados, os meus espelhos cinqüentenários, tão descascados e trincados...
Dar de face comigo. Mergulhar meus olhos nos olhos que me enxergam. Compreender-me.
Habitar uma casa própria. A minha casa.
Será?
As palavras também são espelhos.
Juntas, compõem um caleidoscópio.
Eu sou um kaleidoscópio.
"Lettre à France", de Jean-Loup Dabadie / Michel Polnareff