Kaleidoscópio Literário

a expressão de Kathleen Lessa

Diário
05/03/2010 12h57
DIAS DIFÍCEIS

            Há dias que parecem não ter sido feitos para ti.
           Amontoam-se tantas dificuldades, inúmeras frustrações e incontáveis aborrecimentos, que chegas a pensar que conduzes o globo do mundo sobre os ombros dilacerados.
            Desde cedo, ao te ergueres do leito, pela manhã, encontras a indisposição moral do companheiro ou da companheira, que te arremessa todos os espinhos que o mau humor conseguiu acumular ao longo da noite.
            Sentes o travo do fel despejado em tua alma, mas crês que tudo se modificará nos momentos seguintes.
            Sais à rua, para atender a esse ou àquele compromisso cotidiano, e te defrontas com a agrestia de muitos que manejam veículos nas vias públicas e que os convertem em armas contra os outros...
            Constatas o azedume do funcionário ou do balconista que te atende mal, ou vês o cinismo de negociantes que anseiam por te entregar produtos de má qualidade a preços exorbitantes, supondo-te imbecil.
            Mesmo assim, admites que, logo, tudo se alterará, melhorando as situações em torno.
           Encontraste com familiares ou pessoas amigas que te derramam sobre a mente todo o quadro dos problemas e tragédias que vivenciam, numa enxurrada de tormentos, perturbando a tua harmonia ainda frágil, embora não te permitam desabafar as tuas angústias, teus dramas ou tuas mágoas represadas na alma.
           Em tais circunstâncias, pensas que deves aguardar que essas pessoas se resolvam com a vida até um novo encontro.
           São esses os dias em que as palavras que dizes recebem interpretação negativa, o carinho que ofereces é mal visto, tua simpatia parece mero interesse, tuas reservas são vistas como soberba ou má vontade.
            Se falas, desagradas... Se calas, desagradas.
            Em dias assim, ainda quando te esforces por entender tudo e a todos, sofres muito e a costumeira tendência, nessas ocasiões, é a da vitimação automática, quando se passa a desenvolver sentimentos de auto-piedade.
            No entanto, esses dias infelizes pedem-nos vigilância e prece fervorosa, para que não nos percamos nesses cipoais de pensamentos, de sentimentos e de atitudes perturbadores.
            São dias de avaliação, de testes impostos pelas leis que regem a vida terrena, desejosas de que te observes e verifiques tuas ações e reações à frente das mais diversas situações da existência.
            Quando perceberes que muita coisa a tua volta passa a emitir um som desarmônico aos teus ouvidos; se notares que escolhendo direito ou esquerdo não escapas da crítica ácida, o teu dever será o de te ajustares ao bom senso.
            Instrui-te com as situações e acumula o aprendizado das horas, passando a observar bem melhor as circunstâncias que te cercam, para que melhor entendas, para que, enfim, evoluas.
            Não te esqueças de que ouvimos a voz do mestre nazareno, há dois milênios, a dizer-nos: no mundo só tereis aflições...
           Conhecedores dessa realidade, abrindo a alma para compreender que a cada dia basta o seu mal, tratarás de te recompor, caso tenhas-te deixado ferir por tantos petardos, quando o ideal teria sido agir como o bambuzal diante da ventania: curvar-se, deixar passar o vendaval, a fim de te reergueres com tranqüilidade, passado o momento difícil.
            Há, de fato, dias difíceis, duros, caracterizando o teu estádio de provações indispensáveis ao teu processo de evolução.
            A ti, porém, caberá erguer a fronte buscando o rumo das estrelas formosas, que ao longe brilham, e agradecer a Deus por poderes afrontar tantos e difíceis desafios, mantendo-te firme, mesmo assim.
            Nos dias difíceis da tua existência, procura não te entregares ao pessimismo, nem ao lodo do derrotismo, evitando alimentar todo e qualquer sentimento de culpa, que te inspirariam o abandono dos teus compromissos, o que seria teu gesto mais infeliz.
            Põe-te de pé, perante quaisquer obstáculos, e sê fiel aos teus labores, aos deveres de aprender, servir e crescer, que te trouxeram novamente ao mundo terrestre.
            Se lograres a superação suspirada, nesses dias sombrios para ti, terás vencido mais um embate no rol dos muitos combates que compõem a pauta da guerra em que a terra se encontra engolfada.
            Confia na ação e no poder da luz, que o cristo representa, e segue com entusiasmo para a conquista de ti mesmo, guardando-te em equilíbrio, seja qual for ou como for cada um dos teus dias.


Adaptação de mensagem do Espírito Camilo, psicografada pelo médium J. Raul Teixeira, em 30.12.2002, na Sociedade Espírita Fraternidade, Niterói-RJ.

Publicado por Kathleen Lessa em 05/03/2010 às 12h57
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28/11/2009 03h59
CÂNTICO II de Cecília Meireles


Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amnhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

           {Cecília Meireles}

Publicado por Kathleen Lessa em 28/11/2009 às 03h59
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27/11/2009 17h07
NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI... (de Maria Alice Estrella)
O impacto e a situação do filme encontraram eco na minha vida.
Talvez na vida de muitos, se alterarmos o ambiente geográfico, o tempo e o meio de comunicação.
Quem ainda não assistiu ao filme, faça-o.
É bem provável que você se reconheça no enredo.
Eu me reconheci.

Trago o texto de Maria Alice Estrella, primoroso, porque eu não conseguiria retratá-lo melhor do que ela.
Película de 1986, dirigida por David Jones, ganhadora de 2 Oscar


"Nunca te vi, sempre te amei..."

Sou "fã de carteirinha" da sétima arte. Sou alvo dos seus encantos, desde menininha, quando freqüentava os inúmeros cinemas que existiam em Porto Alegre.
Os rolos de celulose, contando histórias através de personagens memoráveis, exercem um fascínio sobre a minha pessoa ...Assistir a um filme, para mim, exige um ritual. O ritual de desligar-me de imagens e sons do cotidiano para mergulhar nas imagens e sons impressos na tela. É um cerimonial onde descubro a arte da vida retratada em movimento e reencontro pedaços da minha própria vida pincelados entre uma cena e outra.Processo de identificação que justifica a arte por si mesma.
 
Minha paixão por cinema é tanta que, muitas vezes, procuro rever filmes a que já assisti. Alguma coisa muito forte deixou marcas e quero sinti-las novamente.
Pois foi uma dessas razões que me fez buscar o filme Nunca te vi, sempre te amei, com desempenho de Anthony Hopkins e Anne Bancroft.
Nas locadoras de vídeo em que procurei, sai frustrada porque a fita não existia em seus acervos.
Já estava conformada em revirar minhas memórias para buscar o que queria relembrar, quando abri o jornal e me deparei com a programação de uma emissora de televisão, incluindo o filme. Coincidência ou não, encontrei o que buscava.
Assisti ao filme e saboreei cada detalhe, cada gesto, cada palavra, cada emoção com uma apreciação renovada.

Em síntese, o roteiro trata da correspondência mantida entre uma escritora de Nova Iorque e o gerente de uma livraria de Londres, onde se comercializavam livros raros. Simples. Muito simples, já que a história se passa em 1949 e se estende por mais de 20 anos. O meio usado era o correio e os carteiros faziam o trabalho de entrega e recebimento. Coisas em desuso atualmente: selos, envelopes, folhas manuscritas, surpresas palpáveis. O tempo se desenrolava, bem lentamente, entre uma carta e outra, trazendo um saber de expectativa mastigada em suspiros de espera e de ansiedade.

Em um determinado momento, na película, o entrosamente entre os dois é tão declaradamente profundo que eles começam a conversar, olhando para a câmera como se estivessem frente a frente. Na verdade, milhas de terra e mar estavam separando-os fisicamente, mas parecia que desconheciam esse detalhe. Aliás, mero detalhe porque quando encontros verdadeiros acontecem, a distância é condicionamento geográfico de menos importância.
Emocionei-me com a delicadeza da cena, vivida com perfeição por dois grandes atores, que passaram, com a sutileza do preciosismo, a imagem interior de cada personagem, respirando o outro.

Falar sobre isso, hoje, torna-se quase fora de hora. Quase... porque a modernidade trouxe-nos a realidade virtual que permite o correio instantâneo, sem espera de carteiro, sem abertura ansiosa de envelopes. Agora, é só ligar o computador, conectar-se à Internet e abrir com um toque de indicador, a caixa de correspondência eletrônica.
Pronto! A carta impressa na telinha pode ser lida e respondida em minutos.
O melhor de tudo é que esse avanço tecnológico, sinal dos tempos, adapta-se, também à realidade da vida e não a desfigura; transforma-a.
O AMOR continua acontecendo, valendo-se da evolução dos meios e servindo-se deles para unir personagens através das distâncias.
Inúmeras pessoas têm descoberto sua alma gêmea na intincada rede de comunicação e fazem alusão, sem saberem, ao título "Nunca te vi, sempre te amei..."
Algumas delas, ultrapassam a distância e, frente a frente, realizam sua história.
Destino que se cumpriu, alheio aos limites da máquina e atento ao processo da vida. Vida que se repete, como num filme, com os personagens que aceitam o roteiro, quando a palavra de ordem é: AMOR.
E amor, meus caros, é o mesmo sempre, em qualquer tempo ou espaço.

Se você foi premiado com essa descoberta, prepare a mala, a mochila, a esperança e parta em busca do seu presente. Os encontros, nesse nível de profundidade, são raros. 
               
Não espere 20 anos, como na história do filme.

Publicado por Kathleen Lessa em 27/11/2009 às 17h07
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23/11/2009 16h02
DEMAIN, DÈS L'AUBE... (Victor Hugo)

Demain, dès l'aube... (Victor Hugo)
 
Demain, dès l'aube, à l'heure où blanchit la campagne,
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m'attends.
J'irai par la forêt, j'irai par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je ne regarderai ni l'or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j'arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.

 

Publicado por Kathleen Lessa em 23/11/2009 às 16h02
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31/10/2009 19h10
À MESA (Drummond)
À MESA 


E não gostavas de festa. . .
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus tricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.

Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a média galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.

Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, tudo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim. . . Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe. . . Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, nem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinqüentões,
calvos, vívidos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada. . .

Ai, grande jantar mineiro
que seria esse. . . Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacínha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
ïnd'outro dia. . . Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!

E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.

Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.

Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético,
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.

Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças,
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.

Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incómodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com oser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez. . . ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? Demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.

Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos. E mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: quatorze na mesa.
Ou trinta? Serão cinquenta,
que sei? Se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.

A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.

Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fína-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo ,
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita virtualha.

Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? Que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
Quem se apagou? Quem pagou
a pena deste trabalho?
Quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
Quem tem auréola? Quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
Quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? Que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
Quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura. . . Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.

Publicado por Kathleen Lessa em 31/10/2009 às 19h10
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