Kaleidoscópio Literário
a expressão de Kathleen Lessa
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Textos


 
                     AGOSTO DESGOSTO

                                      
        (excerto do livro de Mário Souto Maior)*

 
A superstição é filha do medo. 0 homem primitivo não tinha respostas para suas indagações. Por que existiam o Sol, a Lua, as Estrelas, o Raio, o Trovão, a Noite, as Tempestades? Por quê?

Morando na sua caverna, o homem criou, dentro de si, o medo, o respeito, a adoração por todos os fenômenos naturais para os quais não tinha uma explicação. Talvez muitas religiões tenham nascido desse medo, desse respeito e dessa adoração que dominaram o homem durante muitos séculos.

A caverna era sua casa. Dentro dela o homem primitivo se sentia seguro contra a ferocidade dos animais selvagens, contra o mistério dos trovões, dos raios, das chuvas. Passou, então, não somente a observar os fenômenos naturais como também a viver em função deles, à sua sombra, temendo-os, respeitando-os, adorando-os, por medo.

Foram surgindo, assim, as primeiras superstições, superstições que atravessaram os séculos nas asas do tempo e que ainda hoje estão entre todos os povos, vestidas das formas e das manifestações mais surpreendentes, fazendo parte do mundo simbólico do homem civilizado, convivendo, lado a lado, com a magia e a religião, fazendo, por sua própria essência, com que todas as coisas vivam em torno do homem, quer sejam montes, pedras, árvores, quer sejam rios, plantas ou animais. E também envolvem o tempo: há horas fechadas e outras abertas, quando se devam ou não fazer determinadas coisas. Há um dia da semana - a sexta-feira -em que não é bom fazer negócio, viajar, casar, comprar, vender, trocar qualquer coisa. Há um dia do mês - o dia 13- também muito impróprio para se fazer quase tudo, superstição muito antiga, tão antiga que Mommsen não encontrou, na história de Roma, um só decreto assinado no dia 13. Tão antiga que Hesíodo (700 anos antes de Cristo) aconselhava a não se plantar nada no dia 13. Mas, superstição tão atual que na Europa e na América do Norte muitos prédios não têm o no. 13, não tem o 13º andar, não têm apartamento no. 13, as poltronas dos cinemas e teatros não têm o no. 13.

Há também, um mês que o mundo todo muito teme e muito respeita por ser azarado, o de agosto.

Os romanos deram ao oitavo mês do ano o nome de agosto, numa homenagem ao Imperador Augusto, quando estavam acontecendo os mais importantes fatos de sua vida, destacando-se, dentre os principais, a conquista do Egito e sua elevação à dignidade de cônsul.

Por que, como e quando agosto começou a ser um mês azarento é que ninguém sabe explicar.

Sabemos que os romanos não gostavam do mês de agosto. Acreditavam na existência de um dragão enorme, horrível, que, cuspindo fogo pelas narinas, passeava no céu durante todo o mês de agosto, dragão este que não passava da constelação de Leão nos céus do hemisfério norte.

As mulheres portuguesas não casavam nunca no mês de agosto, época em que os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel e, às vezes, até mesmo viúva. Os colonizadores portugueses trouxeram esta crença para o Brasil já transformada em ditado popular segundo o qual "Casar em agosto traz desgosto' . Assim, se o casamento não for realizado em julho, por qualquer motivo, é bom deixar para casar em setembro, pulando-se o mês de agosto. E por se tratar de um mês azarado - explica Pereira da Costa "é de mau agouro para casamento, mudanças de casa e empreendimentos de qualquer negócio de importância". Na Alemanha, entretanto, as mulheres não acreditam no poder mágico da superstição. Enquanto em muitos países maio é o mês das noivas, lá as moças sonham casar no mês de agosto, preferencialmente num dia de sexta-feira, o que não significa um desafio mas um costume.

Na Argentina, não é aconselhável lavar a cabeça durante todo o mês de agosto. Quem lava a cabeça em agosto está chamando a morte.

As assombrações, as almas do outro mundo que, entre gemidos e arrastar de correntes, balançam as redes dos que dormem após um longo dia de trabalho, costumam aparecer, pedindo missa, querendo rezas, no mês de agosto, que é o mês do frio e da ventania.

A verdade é que a crença popular de que agosto é o mês de desgosto não é somente um ditado popular que rima; é, também, uma superstição internacional de grande aceitação entre nós, principalmente na zona rural do país, destacando-se, de modo muito particular, em todo o Nordeste, onde o processo de colonização foi homiogeneamente português.

Mas, apesar de muita gente não acreditar nos azares próprios do mês de agosto, não custa nada fazer como muitos que não casam em agosto, não se mudam em agosto, não viajam em agosto, não fazem negócios em agosto, que se transforma, assim, num mês de recesso para supersticiosos ou não. É, que as pessoas - acreditando ou não -preferem não brincar com o mágico, com as coisas do sobrenatural.

0 melhor mesmo é como fazem os cariocas que, quando chega o mês de agosto, procuram os frades do convento dos Franciscanos para receber as bênçãos dos frades barbadinhos e espantar o azar. Os religiosos, corri a conhecida paciência franciscana, se revizam de manhã à noite, durante todo o mês de agosto, aspergindo água benta sobre os supersticiosos, homens e mulheres, brancos e pretos, velhos e jovens, ricos e pobres. E quando o dia 13 de agosto cai numa sexta-feira, ai' é que o trabalho dos frades aumenta porque o número de pessoas que procuram se livrar do azar é multiplicado por cem.

A verdade, verdadeira, mesmo, é que durante o mês de agosto muita coisa ruim já aconteceu na face da Terra. Guerras, epidemias, desastres, furacões, invasões, suicídios, revoluções, terremotos e o diabo-a-quatro abalaram o mundo com tanta insistência que muita gente fica apreensiva quando chega o mês de agosto, esperando que algo de mau aconteça.

Fazendo uma rápida retrospectiva através das páginas da história da humanidade, constatamos que, realmente, muita coisa ruim aconteceu ao homem durante o mês de agosto. Seria enfadonho mencionar todas essas coisas más que marcaram os povos com sangue e lágrimas.

No dia 24 de agosto de 1572 Catarina de Medici ordenou o massacre de São Bartolomeu, que ceifou milhares de vidas.

No dia 14 de agosto de 1831 os poloneses foram vencidos pelos russos na chamada revolta de Varsóvia e muita gente morreu sonhando com a liberdade.

No dia 14 de agosto de 1844 a França invadiu Marrocos.

No dia 11 de agosto de 1863 a França dominou o Cambodja.

Na cidade de Nova York, no dia 6 de agosto de 1890, o primeiro homem foi eletrocutado numa cadeira elétrica, como se o governo americano, arvorando-se em defensor de sua sociedade, achasse justo tirar a vida de um homem que tirou a vida de outro, isto é, fazendo a mesma coisa.

Em 24 de agosto de 1910, o Japão invadiu a Coréia, às custas de muito sangue, de muitas lágrimas.

No dia 1º de agosto de 1914 começou a 1ª Grande Guerra Mundial.

A Itália se apoderou, pela força das armas, da ilha de Corfu no dia 27 de agosto de 1923.

Deixando milhares de viúvas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, viúvas que ainda hoje choram e depositam flores em seu túmulo, faleceu no dia 23 de agosto de 1926, o artista de cinema Rodolfo Valentino, um mito da sétima arte.

Com a morte de Hinderiburgo ocorrida no dia 2 de agosto de 1932, Hitler assume o governo da Alemanha.

A cidade de Pequim é invadida pelos japoneses no dia 8 de agosto de 1937.

Não satisfeitos com milhões de vítimas causadas pela 1 Grande Guerra Mundial iniciada no dia 1º de agosto de 1914, os homens iniciam a 11 Grande Guerra Mundial em agosto de 1939.

Mais de duzentas mil pessoas morreram nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, quando as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pela bomba atômica, deixadas cair pelos pilotos Thomas Ferrebre e W. Copoeland.

No dia 13 de agosto de 1961 foi iniciada a construção de um muro, em Berlim, depois mais conhecido como o Muro da Vergonha.

0 Paquistão e a Índia começaram a lutar no dia 25 de agosto de 1965.

0 Exército Vermelho invadiu a Tchecoslováquia no dia 21 de agosto de 1968.

Na Irlanda do Norte, no dia 12 de agosto de 1968, católicos e protestantes começaram a se matar em nome de Deus, que nada tem a ver com isso.

No dia 8 de agosto de 1974 Richard Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos, em conseqüência dos escândalos de Watergate.

E no Brasil, o que aconteceu durante o mês de agosto?

Em agosto de 1943 o navio "Cidade de São Paulo" chocou-se com uma das alas da Escola Naval. Dezoito pessoas morreram, inclusive Dom José da Afonseca e Silva, arcebispo de São Paulo, além de muitos feridos,

Durante o mês de agosto de 1952 caiu um DC-3 em Goiás, matando vinte e quatro pessoas e, em São Paulo, caiu um avião President com um saldo de quarenta e seis mortos e trinta feridos.

Em agosto de 1963 dez pessoas morreram em conseqüência de um choque entre aviões da Força Aérea Brasileira, em Viçosa, Alagoas. Um DC-8, no dia 21 de agosto de 1963, quando tentava vôo com destino à Europa, caiu no Galeão matando doze pessoas. No dia 4 de agosto de 1963 dois aviões de treinamento da FAB se chocaram em Jacarepaguá ocasionando a morte de seis aspirantes da Aeronáutica. Em agosto de 1965, um avião da TAP caiu em Cuiabá, fazendo oito vítimas.

Em agosto de 1965 o navio "Duque de Caxias" pegou fogo em Cabo Frio, quando trinta pessoas perderam a vida.

Em agosto de 1955 cinco pessoas morreram no incêndio da boite Vogue, dentre elas o cantor americano Warren Hayes.

Em agosto de 1958, uma violenta explosão seguida de um pavoroso incêndio, num paiol de pólvora do Exército em Marechal Deodoro, matou dezenas de pessoas, deixando milhares de desabrigados.

Em agosto de 1959, um incêndio que destruiu uma fábrica de tintas, no Rio de Janeiro, fez cinco vítimas, entre as quais três bombeiros.

No dia 6 de agosto de 1957 as estatísticas acusaram um saldo de cem mil desempregados em São Paulo. No mesmo dia falecia o ex-presidente Washington Luís. No dia 13 de agosto do mesmo ano foi decretado estado de calamidade pública no país em conseqüência da epidemia da gripe denominada asiática, sendo transformados em hospitais de emergências escolas, clubes e repartições estaduais e federais.

Em agosto de 1960 morreram 59 alunos da Escola Técnica de Comércio Pedro 11 quando o ônibus em que viajavam precipitou-se num abismo que a todos serviu de sepultura.

Agamenon Magalhães morreu no dia 24 de agosto de 1952, quando exercia o cargo de governador de Pernambuco.

Como resultado de uma crise política que assolou o país, suicidou-se, às 08:30 horas do dia 24 de agosto de 1954, no Rio de Janeiro, o então presidente da República Getúlio Vargas, renunciando, assim, não somente à presidência da República como também à vida.

Forças estranhas fizeram com que o presidente Jânio Quadros renunciasse à presidência da República no dia 25 de agosto de 1961.

Pela lei no. 4380, de 21 de agosto de 1964, o presidente Castelo Branco criou o Sistema Financeiro da Habitação, tendo o Banco Nacional da Habitação - BNH como seu órgão central e que hoje é a maior dor-de-cabeça da classe média brasileira.

Vítima de um desastre automobilístico, Juscelino Kubitscheck - que tornou realidade um sonho desde os tempos do Império, de centralizar a capital da República - faleceu no dia 22 de agosto de 1976.

E, no Brasil e no Mundo, o que já aconteceu neste mês de agosto que estamos vivendo? (1981)

0 ministro Golbery do Couto renunciou.

No dia 22 um Boeing737 explodiu em Formosa, matando cento e dez passageiros.

No mesmo dia  22 faleceu Glauber Rocha, um gênio que abriu novos caminhos para o cinema mundial e que projetou lá fora, no estrangeiro, o nome deste país.

24 de agosto é o dia das sogras.

24 de agosto é o dia em que o Diabo anda solto, fazendo as suas.

24 de agosto é o dia de todos os Exus nos candomblés brasileiros.

Você acredita nessas coisas? Ou você não acredita?

Alguém pode de indicador em riste, apontando para mim e também perguntar: - E você, acredita ou não acredita? Eu então respondo como um espanhol, cujo nome já fiz tudo para me lembrar, mas não consegui:

- Yo no creo en brujarias. Pero que Ias hay, Ias hay...

 

in "Folclore quase sempre", de Mário Souto Maior, com prefácio de Fernando de Mello Freyre. Recife. Grumete Edições, 1986.
 

KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 09/08/2008
Alterado em 11/09/2010
Copyright © 2008. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Os textos da autora têm registro no ISBN. Plágio é crime.